sábado, 25 de julho de 2009

Só mais um teco

A sensação é desconfortável. Frio. Já não sinto mais as pontas dos meus dedos. A boca seca, a dor de cabeça, o inchaço, o nariz trancado incomodam. Cheguei ao limite do meu corpo. Mas a minha mente nunca esteve tão consciente. Talvez. Tenho uma escolha: baixar guarda e recuar ou jogar a tolha e realmente não me importar mais.
Minha vida está na minha mão agora. Eu sou o meu próprio líder. Hum... É bom ter consciência disso. Se eu decidir jogar tudo pro alto, eu vou encontrar a liberdade que eu sempre quis. Liberdade pura. E, para isso, eu tenho que abrir mão de todo o resto - me deixar morrer. É o que eu posso fazer agora.
Se eu não fizer isso, o meu corpo vai se recuperar. A minha cabeça vai parar de doer, o meu nariz vai limpar e eu vou dormir. E o maior problema de dormir é acordar. Acordar e voltar a viver. Viver preso a um lugar. Viver preso à rotina. Viver preso a pessoas. Viver preso ao ódio e também ao amor. A vida comum é uma cela escura, suja e fedida.
E, neste momento, com a mente leve, eu tenho a possibilidade de me livrar e não ter mais que me importar com nada. A essência da minha morte iminente é a liberdade. Posso morrer vivendo a morte - essa deve ser a experiência mais incrível que um homem pode ter. Incrível e íntima. Vou me encontrar com quem eu sou de verdade e, na minha intimidade humana, ser calmo, feliz e livre.
Mas será que eu estou pronto pra tudo isso agora?
O que eu fiz?
O que eu faço?

quinta-feira, 12 de março de 2009

Baleia não é peixe

Há pessoas que visitam este Café Escracho e não entendem uma só palavra que está escrita - e, principalmente, as que não estão escritas - e saem por aí falando nada com nada:

- Você me chamou de maconheiro? Isso foi pra mim, claro...
- Você não tem limites na sua crítica jornalística?

Daí, resultam-se caras viradas e "censura genealógica". Mandem-me para a fogueira, isso! Quem sabe assim a carapuça queima junto comigo? Enfim, para aquelas pessoas que vigiam este blog regularmente [eu sei] e que não entendem a diferença entre uma baleia e um tubarão, ficam dois recadinhos simples: primeiro, jornalismo passa longe deste blog. De jornalístico, o Café Escracho não tem nada. Baleia não é peixe, minha gente! Segundo, vão ver televisão, vão...
Mas existem pessoas que entendem uma piada, uma ironia e, principalmente, gostam de dar tiro no pé, nem que seja no pé dos outros. E essas pessoas percebem que o que eu escrevo, com humor e maldade, tem um significado muito além do que aquilo que aparece aqui ipsis litteris. E acabam por reconhecer o objetivo deste blog.
Por exemplo, o jornalista mineiro Wander Veroni, que edita o blog semi-xará Café com Notícias, concedeu ao Café Escracho o seu primeiro selo de, por assim dizer, qualidade:


E não pára por aí. O E-blogue, um zine virtual que disponibiliza um espaço voltado única e exclusivamente para a produção artística que usa a internet como principal ferramenta de divulgação, publicou três textos do Café Escracho na sua sétima edição. Fato que sinceramente me deixou muito feliz.
Segundo Jana Lauxen, uma das "e-ditoras" e fundadoras do E-blogue, "existe muita gente boa produzinho e publicando na internet material incrível. Escritores, desenhistas, músicos, fotógrafos que ainda não encotraram espaço nesse mercado tão atulhado e confuso recorrem à internet para divulgar e, até mesmo, comercializar o seu trabalho. O problema é que, neste palheiro virtual, muitas vezes, os bons se perdem em meio aos médios. Nossa intenção é encontrar os bons".


E eu fico putamente feliz em ter ido parar no E-blogue, que mistura semanalmente literatura, fotografia, desenhos, música, HQ's, vídeos - enfim, tudo o que merece ser mostrado. E agradeço sinceramente àqueles que sabem que baleia e tubarão podem até nadar juntos, mas não são parentes.

quarta-feira, 11 de março de 2009

A primeira vez... *

... é sempre uma merda.
Não só no sexo, mas também na profissão. E sem essa de sexo como profissão porque eu não estou passando fome, ainda... Enfim, a adolescêcia já é passado - assombrado, é verdade -, mas passado. O assunto é outro, que é passado, presente e futuro. Uau! Eu devia queimar um agora... pelo passado. Não, é melhor eu só falar dele. Do passado - iiihh...

...

Huuumm... Ano passado, para cumprir o p... pp... pro... [nesse estado, é foda] pro-to-co-lo do curso de Jornalismo, eu tive que ser repórter na prática. O que é ser um repórter na prática? Na real, sei lá. Se eu não tivesse mandado a Técnica de Reportagem às favas - "às favas" é uma expressão engraçada, né não? -, seu eu tivesse lido o Nilson Lage, se eu tivesse assistido às aulas - em vez de beber e abduzir [hum] -, eu saberia. Mas isso se conserta, né? Né? Esperança, irmão. Jah vai dar uma luz!
Ok - jóia!
De qualquer maneira, quando eu fui à aula de redação, tive que pegar a minha primeira pauta... qual era mesmo? Aaah, alguma coisa sobre o conselho federal de jornalismo - sabe-se lá por quê minha memória anda uma merda... Minhas fontes deveriam ser jornalistas profissionais, estudantes [será que eu posso ser fonte de mim mesmo? Ia ser louco, hein.], professores de Jornalismo e o presidente do sindicato de jornalistas. Deadline, uma semana. Uma semana para uma só matéria - como se, no mercado de trabalho, fosse assim. Mas faculdade é mesmo para ensinar. Sabe como é...
Bom, resolvi me esforçar e liguei para o presidente do sindicato de jornalistas de Mato Grosso do Sul. Não o encontrei. E, então, esperei. Esperei por dois dias, na boa vontade, até que ele me disse que eu deveria enviar as perguntas da entrevista por e-mail - o que me evitou de atravessar Campo Grande para chegar até o sindicato. Mole! Enviei as perguntas, ele respondeu. Então, eu precisava falar com as outras fontes. Aí o bicho pegou, mano. Despreparo e timidez - duas qualidades que ferraram a minha primeira vez. Como repórter. Hum... primeiras-vezes são sempre iguais, né?
Como falar com as pessoas, falar mesmo, é difícil! Se tivesse um manual para isso, para aquilo, para tudo o que é preciso aprender, talvez fosse mais fácil. Talvez, se eu tivesse lido a Cremilda Medina, tivesse sido mais fácil. Talvez, nem tudo que é de fato necessário a faculdade ensina. De fato.
Enfim, de todas as fontes que eu deveria consultar, só uma me serviu - nem eu mesmo fui uma boa fonte. A matéria ficou foda - uma bem mal dada, por sinal. Mas, como diz o senso comum - que medíocre eu sou! -, a prática leva à perfeição. Difculdades sempre aprecem, mas faculdade é mesmo para ensinar. Universalmente falando...
O fato é que eu acabei lendo o que eu devia ter lido, matei a fome e ando me protegendo contra eventuais percalços. Por enquanto, eu sou só um universitário querendo se aperfeiçoar, desenvolver a sua técnica. Mas um dia eu vou ser profissional. De jornalismo, claro.


* Texto publicado em resposta ao meme sugerido pelo jornalista Wander Veroni, editor do xará Café com Notícias.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Eure Kampf [em nome do Grande Mago]

Vá se acostumando com a idéia de que o céu não é lugar para todo mundo. Mais de seis bilhões de almas abduzidas boiando no plano superior? Deus não daria conta disso tudo; já não dá... Mas não se preocupe, os amaldiçoados não vão assombrar os campos de Hiperbórea. De uma tacada só, desses seis bilhões, já se podem derrubar todos os que já nasceram condenados: africanos e adjacentes - o que inclui Michael Jackson -, asiáticos, índios, latinos e - é óbvio - judeus. Sobram brancos, europeus [e descendentes diretos] e - claro - cristãos.
Porém, não basta apenas ser imagem e semelhança para um homem se sentir todo poderoso. É preciso ser todo poderoso - ou seja, é preciso combater hereges e os coitados impuros com discursos igualitários e com um sonho na mente e no coração; é preciso impôr a supremacia dos bem aventurados. Afinal, de que adianta ser supremo senão para subjugar os marginais? Todavia, o combate direto é muito anos 60, além de incoerente: o fazendeiro, o dono da farmácia, o bancário, a dona de casa, o prefeito, o padeiro, o líder comunitário, o chefe da pastoral nunca sujam as mãos.
Por isso, eles adotam uma estratégia velada, bem ao estilo Opus Dei - por debaixo dos panos, agindo nas entrelinhas. Às vezes, basta falar uma frase curta ou uma piada engraçadinha, mas carregada de racismo, intolerância religiosa, preconceito para propagar seus próprios dogmas sagrados. Outras vezes, não é preciso dizer nada. Basta virar os olhos, atravessar a rua, ser indiferente, discriminar.
E, se isso parece maldade, não tem problema. É só limpar os pés antes de entrar em casa e rezar um pai-nosso antes de dormir, e todo pecado é perdoado. Salvando sua própria pele, os outros que se danem.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

30 dias

Depois de perseguido por perturbadores fantasmas de bebês engatinhando pelo teto, eu escolhi voltar - depois de um mês de abstinência - a escrever neste insipiente blog, cujo nome há tempos não corresponde mais ao teor satírico que pretendia este incipiente [e pedante] autor atribuir aos textos que publica. De qualquer maneira, o nome continua aí - debochando da minha frustração pessoal... Aliás, por tudo o que este blog poderia ter sido e não foi - por tudo que eu poderia ter feito e não fiz -, Café Escracho é o nome apropriado para esta pífia coletânia de palavras sem sentido. É um deboche de mim mesmo.
Abrindo um parênteses na autocrítica, o Café Escracho teve um momento alto em sua curta e irrelevante existência, ao revelar detalhes convenientemente ignorados de uma campanha eleitoral numa cidade perdida no interior do Brasil. Foi um grande momento porque eu pude mostrar como eu posso ser, segundo os outros, "um canalha bastardo". Bons tempos... Mas eu decidi não tecer mais nenhum comentário envolvendo a minha árvore genealógica - não por amor, claro. Mas sim porque este blog não é um diário e, se um dia passar perto de ser, ele merece ser banido da Internet. É o que parece agora...
Enfim, em trinta dias, muita coisa aconteceu: os jesuítas formaram um exército nos Sete Povos das Missões; Bibiana e capitão Rodrigo formaram o clã Terra Cambará; Gregor Samsa se transformou num inseto bizarro; Raskólhnikov cometeu seu crime e viveu seu castigo; a indústria do cigarro tirou o seu sarro; os mortos voltaram para julgar os vivos; Rotner escolheu uma vida limpa - mas comum...
E eu, no meio de tudo isso, ainda tenho escolhas a fazer.